Meu Diário de Adoção: Falemos das dúvidas

Resolvi criar essa “tag” – Meu Diário de Adoção – para distinguir de outros posts no meu blog, na maioria, ligados a yoga, vegan food e autoconhecimento. Às vezes, olho para o meu blog querido e vejo a maior lambança, mas não ligo, porque a vida é assim mesmo, um monte de coisas e ideias e projetos, tudo junto e misturado.

Ainda pratico yoga quase todo dia, mas não com a intensidade de três anos atrás. As prioridades têm mudado e isso é bom também. Mas é claro que vai ter muito post sobre yoga neste blog ainda, assim como sobre adoção, maternar, viagens e muito mais (se Deus quiser – e Ele quer!)

Eu gostaria que este post fosse o primeiro e único sobre o tema, mas tenho a impressão de que, infelizmente, pode não ser assim. Tanto faz, tudo é aprendizado e as críticas – desde que construtivas – podem servir para o crescimento.

[Suspiro fundo]

 

Há poucos dias, minha irmã mais nova criticou muito minha decisão de adotar, ela que sempre tinha se mostrado muito favorável. Ainda bem que ela não lê meu blog, pois acho que isso a magoaria. Mas, irmã querida, se um dia ler isso, por favor, não fique triste, você tem direito de pensar como quiser, e o amor que nos une é o mesmo, acredite! mas escrevo para outras mães que podem passar por algo parecido.

Ela estava no trabalho um dia e, do nada, uma senhora começou a compartilhar sua própria história de adoção. Ela tinha acompanhado a gestação de uma mulher muito pobre, que engravidou de um homem casado, há mais de duas décadas. A mulher escondeu a gravidez da família amarrando a barriga com uma faixa e um prato. E era assim que ela trabalhava como empregada doméstica durante toda a gestação.

A colega de trabalho da minha irmã se compadeceu e ela e o marido adotaram a menina, e a criaram com muito amor e carinho, como ela conta. Essa história toda ela começou a contar para minha irmã no meio do expediente, sendo que minha irmã não tinha dito a ninguém que eu queria adotar. Minha irmã sempre foi muito intuitiva, e eu também acredito muito em intuição, então ela achou que poderia ser uma espécie de “aviso”. Eu também até que achei. Quando ela me contou essa história, fiquei até animada, achando que ouviria mais uma história bem-sucedida.

E é bem-sucedida, apesar de tudo. Essa senhora diz que nunca se arrependeu de ter adotado a menina, mas diz que, de todos os filhos (pois ela também teve biológicos), a adotada tinha dado mais trabalho. Tinha dito várias vezes “Você me adotou porque quis” “Você nao é minha mae” e coisas do tipo. Deu trabalho na escola, se envolveu com drogas, quase não se forma, teve dificuldades várias. Mas então, engravidou e teve seu proprio filho, e a mãe adotiva disse que tudo enfim se acalmou entre elas. Repito: Ela disse que ama a filha demais e que hoje se sente amada por ela, mas que o caminho foi difícil. 

Quando minha irmã me contou essa história, eu tinha acabado de ter minha primeira entrevista no Fórum, e estava nas nuvens, já me sentindo “grávida do coração”. Fiquei um tanto acabrunhada, mas não me abalou muito. A história tinha final feliz, enfim, e dificuldades as famílias enfrentam com filhos adotivos ou biológicos; eu mesmo, dei muito trabalho aos meus pais.

Umas duas semanas depois, minha irmã me conta que outra colega de trabalho também começou a puxar conversa e falou sobre o irmão adotivo, “que tinha sido criado com todo o carinho” e agora dava problema em casa. Ela disse: “Tem jeito não, a semente é ruim…”

Minha irmã se rendeu ao medo: “Andressa, desiste. Isso dá problema”. Quando viu que eu não desisti da adoção, ela sentenciou: “Depois, não diga que eu não avisei”. Eu aceitei e disse: “Tá bom, minha irmã, eu vou me lembrar que você me avisou, se der tudo errado”.

Outras críticas também me impactaram, mas essas da minha irmã foram as que realmente me deixaram para baixo. Porque as outras pessoas não são da minha família, de quem a gente sempre espera apoio incondicional.

As outras críticas vieram de um grupo de estudo do qual eu fazia parte, mas que resolvi me desligar. A gente estava com valores diferentes e eu estava me sacrificando financeiramente para fazer parte de um círculo de pessoas que, acho, esperam outras coisas da vida, e cada um de nós tem o direito de seguir seu próprio caminho em paz. Em outro post eu vou citá-las, porque são críticas – eu acho – muito ouvidas por quem se propõe a adotar. Não escrevo agora porque o post já está muito grande.

Então, fiz o que sempre faço diante de algo difícil: rezei. Pedi a Deus para afastar esse tipo de comentário do meu caminho, se for de Sua vontade, é claro. Pedi por paz e proteção em todas as fases do meu processo de adoção. Pedi que apareçam pessoas que nos motivem, a mim e a meus familiares, e a todas as pessoas com quem eu tiver contato, e meu futuro filho ou filha também – com histórias felizes, com comentários de força, de luz.

E também fiz outra coisa que sempre faço muito: comecei a estudar. Se eu ia enfrentar preconceitos no caminho da adoção, queria entender de onde vinham. Encontrei um livro chamado “Adoção Tardia: Da Família Sonhada à Família Possível”, de Marlizete Maldonado Vargas.

No início do livro, ela fala muitas coisas interessantes sobre a história da adoçao, que podem explicar essas situações, pelo menos, em parte. Como por exemplo:

“No Brasil, a adoção existiu, principalmente, marginal aos processos legais e escapando às estatísticas. Segundo Costa (1988), a prática, denominada de ‘Adoção à brasileira’, ocorria em 90% das adoções que se concretizava no país até 1988, ou seja: pessoas de qualquer estado civil registravam como próprias, legítimas, os filhos de outros. Os argumentos para tal prática estavam, geralmente, apoiados no excesso de burocracia imposto pela legislação vigente até 1989″. (grifo meu)

A ‘adoção à brasileira’ é o que houve no caso da primeira colega de trabalho da minha irmã: ela adotou uma criança dada pela mãe biológica a ela. Simplesmente pegou a menina e a registrou no seu nome, prática que hoje é considerada ilegal, eu acho – não sou advogada e não tenho certeza, mas acredito que isso não possa mais ser feito, por motivos óbvios.

Eu não questiono a boa vontade dessa senhora, seu amor de mãe e desejo sincero de ajudar uma criança destinada ao abandono, mas esse tipo de processo “adotivo” informal abre margem a todo tipo de abuso. E se for uma pessoa inescrupulosa que adotar a criança? E se essa pessoa estiver adotando pelos motivos errados?

É para evitar esse tipo de situação que existe o processo “burocrático” do Fórum. Ele precisa existir. Além disso, a adoção à brasileira também coloca os pais e todo o vínculo mae-e-filho-adotivo em risco.

Minha irmã conhece mais uma colega que também adotou sua filha dessa forma – conheceu uma mulher muito pobre do interior disposta a dar seu bebê, e ela a registrou em seu nome, sem nunca passar pelo Fórum. Ela falou que não tem uma noite que não tenha medo que alguém venha tirar sua filha dela. Isso porque, se a adoção foi à brasileira, a família biológica tem o direito por lei de requerer a guarda dos seus filhos, e a família adotiva fica em segundo plano. É a receita de um desastre, em termos emocionais, tanto para os pais adotivos quanto para a criança.

Mas é fato que, com a grande maioria – 90%! – das adoções no Brasil até pouco tempo sendo feitas dessa forma, temos inúmeros casos bem-sucedidos… e outros nem tanto. Não cabe a mim julgar, porque não sou jurista, nem psicóloga e muito menos especialista, mas sou uma potencial mãe adotiva, e tenho voz. E dá para perceber o grande peso que a adoção à brasileira põe nos ombros de pais, causando uma ansiedade que termina passando para a criança, provavelmente.

Por isso que, desde o início, me determinei: eu faria tudo dentro da lei. Não ia forçar nada, driblar nada. Com filho não se arrisca. Digo isso sem julgar os pais e mães que adotaram “na raça”, com a adoção à brasileira. Cada caso é um caso e não estou aqui para julgar – ufa!, parece um mantra! Só acho esse caminho muito sofrido.

Ainda no mesmo livro:

“Videla e Maldonado (1981) assinalam que quase todos os pais adotivos têm a fantasia de que realizaram algo delitivo e, em consequência, alimentam culpas e temem represálias, como perder a criança supostamente ‘roubada’; que a criança resolva retornar para os pais biológicos; que a sociedade lhes censure pela ausência do processo biológico da gestação ou que o aspecto filantrópico seja exaltado”.

É muito sofrimento que “quase todos” os pais adotivos sofrem calados. E só agora estou tomando conta de que isso é uma realidade que terei que enfrentar em algum momento – e esse momento é agora.

Ainda não estou habilitada, talvez nem seja, mas estou vendo que preciso me armar de coragem. É verdade, existem preconceitos. Vai haver críticas. Vai ter gente para dizer muita coisa que magoa.

Mas não é assim com todas as mães, adotivas ou não? Solteiras ou não? Biológicas ou não?

Só para encerrar. Tem uma yogini que acompanho há muitos anos no Instagram e recentemente ela se tornou mãe. Achei a gestação dela, o parto e acho todo o amor com que ela trata a filha a coisa mais linda do mundo. Sério, é lindo. Ela é tipo “a mãe perfeita”, eu sei que isso não existe, mas a criança é muito amada, e extremamente bem cuidada. Tem pai e mãe, casados, a filha é biológica. Famosa, linda, com boas condições financeiras, bem-sucedida. Enfim, aquelas vidas que parecem perfeitas. Pois ainda aparece um monte de gente para criticar e fazer comentários do tipo “Você não está sendo uma boa mãe, tá fazendo isso e aquilo errado”. Tanto que isso a fez até escrever um post exclusivo agradecendo a preocupação, mas que estava fazendo o melhor, o que achava que era certo.

Como toda mãe.

 

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6 thoughts on “Meu Diário de Adoção: Falemos das dúvidas

  1. Olá!
    Eu estou habilitada há um ano, também tenho um blog, onde falo exclusivamente sobre adoção.
    Uma coisa que percebi é que todo mundo tem uma história pra contar sobe adoção mal sucedida. Eu e meu marido decidimos adotar já faz alguns anos e a reação das pessoas são sempre muito parecidas, com comentários desnecessários, e sempre tem uma vizinha, uma amiga, uma cunhada que adotou e blá-blá-blá deu tudo errado.
    Também acho que isso tem a ver com a história da adoção no Brasil, a adoção à brasileira, mas também essa coisa de adotar por caridade, de esconder a adoção e, às vezes, de tratar o filho diferente … toda história tem dois lados.
    A parte boa é que hoje em dia as coisas mudaram muito. Mas acho que você está no caminho certo, estude bastante o assunto e tenha muitas dúvidas agora que é pra não sobrar nenhuma depois.
    Abraços! Boa sorte na jornada!

    • Oi, Joy (você diz seu nome?)

      Já estou seguindo seu blog : ) Você tem indicações de livros, filmes e materiais de consulta? Sobre adoção e maternidade em geral, pois sou mãe de primeira viagem..

      Também acho que as coisas estão mudando rápido, e para melhor. Acho que daqui a umas duas gerações todo esse preconceito terá quase sumido, porque o tema adoção está cada vez mais positivo, e isso graças aos pais, mães, filhos, filhas, famílias adotivas, profissionais das Varas da Infância, enfim… está melhorando bem rápido, o que é excelente notícia.

      beijos e obrigada pela visita!

  2. Oi flor!!
    Aff, é tanta coisa nessa jornada né..
    Como a Joy falou aqui em cima, não adianta, SEMPRE vai ter alguém que sabe de alguma história ou tem algum parente que passou por adoção mal sucedida.
    Sempre vão ter mais pessoas falando sobre os contras de adotar ao invés de apoiar, e infelizmente essas pessoas muitas vezes fazem parte do rol de pessoas que amamos.
    Por isso não se apegue a essas coisas, a maioria fala sem conhecimento de causa!
    E não acho que seja por causa do tipo da adoção, sendo “à brasileira” ou não, o forma o carater de um filho é a segurança e o exemplo dos pais, simples assim.
    E se é para dar exemplos, use o meu, filha adotada a brasileira(prometo que vou postar logo minha história no blog kkkk), que nunca teve duvida da filiação ou revolta sobre isso e tenho mais pelo menos uns 5 exemplos iguais entre famílias e amigas.
    Por isso falo com segurança que a segurança dos pais que fazem os filhos, um filho que é tratado como filho e não estigmado como filho adotado, jamais terá problemas, como sempre falo, se uma criança tiver pai e/ou mãe de verdade, ele jamais vai querer ir atrás de algum laço biológico, afinal, pq ir atras de uma mãe se vc tem uma?..só se vai atras do que não se tem!

    Bjooo.

    • Mi, me emocionei aqui :’) Não sabia de sua história de adoção, claro que vou querer ler quando você compartilhar!

      Pois é, as críticas vêm, mas estou me sentindo muito feliz com todo o processo. Desde já, estou me sentindo mais feliz, mas livre, mais forte, mais… mãe ❤

      Críticas sempre vão existir e também conheço vários casos de adoção, à brasileira ou pelo Fórum, que deram muito certo. Outras tiveram contratempos, mas isso não acontece nas famílias "biológicas" também?

      Até agora, meu processo de adoção só me fez bem. E vou em frente com sorriso no rosto e o coração crescendo e pulsando forte. ❤

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